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Lendas, Crenças e Tradições de Vizela

* Lenda de Mouros (Freguesia de St.º Adrião) 

O castro, mais conhecido pelo nome de Monte da Senhora da Tocha, pronunciado Senhora Datocha, reúne todas as condições topográficas duma genuína povoação pré-romana. É um outeiro completamente isolado por todos os lados, e fácil de fortificar com muralhas que sem a menor dúvida teve, mas de que hoje, como é o caso mais vulgar dos nossos castros, não resta vestígio algum. Vêm, porém, ainda muito distintamente em algumas partes os terraplenos que pegavam com o parapeito dos muros, e é bem possível que o visitante deste monte encontre uma boa velha que está na posse do papel cicerone e que não deixará de ir mostrar o sítio, onde os mouros iam assestar «a artilharia». É um dos terraplenos mais desenvolvidos, olhando para Vizela.
Fragmentos de louça e de telha com rebordo não faltam por ali; encontra-se uma outra atafona de mão e alguma pedra de antigas construções aproveitada em reconstruções modernas; parece terem sido encontradas várias moedas. Fala-se numa «foucinha» gravada num penedo; onde, porém, fica o penedo é que ninguém sabe, como ninguém sabe em que ponto começava a entrada subterrânea levando do centro do castro ao rio Vizela, que se vê correr a distância.
Notável é a lenda que ficou dessa altura. A capela da Senhora da Tocha fica no cimo do monte, esta é atribuída aos mouros, como muitas outras do nosso país. Esta santa é advogada das parturientes, a sua imagem é pouco menos de moderna; mas quem quiser ver a que a precedeu não tem mais do que examinar um nicho por cima do arco da capela-mor, onde encontrará uma estatueta de pedra de Ançã, de estilo sofrivelmente arcaico. Mais feliz que outras estátuas antigas, destronadas pela moda, esta não foi absolutamente desprezada, como a da Santa Margarida, do nosso S. Miguel do Castelo, ou a de S. Cristóvão de Rio Mau. Deixou o lugar de honra, mas ocupa ainda um plano secundário com a denominação de Santa Capeluda, que lhe deram de certo em troca do que perdeu. Ora esta Santa Capeluda, sabem-no todos os moradores do castro, era para cristãs e mouras indistintamente o que a Senhora da Tocha é hoje exclusivamente para as cristãs. «Quando estavam em vésperas «d’aliviar-se» (conta uma mulher das redondezas), as mouras apegavam-se com a Santa, clamando: «Santa Capeluda me valha! Santa Capeluda me valha!»; mal livres do susto, punham-se a varrer a casa, gritando: «Capeluda fora! Capeluda fora!». – As bêbadas! – comentava a narradora, com uma intonação que deveria lisonjear as mouras mais melindrosas, em vez de as ofender.
Esta lenda não poderia formar-se em tempos cristãos, porque há a desviar dela toda e qualquer identificação entre mouros e árabes. Sem dúvida foi a dominação árabe que popularizou na Península o nome de mouros; mas nós cremos ter demonstrado que nas nossas tradições de mouros encantados o nome de mouros veio substituir o de pagãos, e que tais tradições existiam muitos séculos antes da invasão árabe. Não pode, pois, admitir-se que a lenda, que nos ocupa, achasse modo de introduzir-se em tempos relativamente recentes e, por exemplo, tivesse por base a coexistência de mulheres cristãs e árabes, as últimas das quais invocassem nas suas aflições as santas, cujo valimento as primeiras lhe encareciam. Os mouros da nossa lenda são os mouros dos castros, das fontes, das mamoas, isto é, os misteriosos construtores de tudo isto, os pagãos, enfim, como os cristãos lhes chamavam ao princípio.
Como todas as tradições desta espécie, a do castro refere-se ao passado; a Santa Capeluda não é actualmente invocada pelas mouras, era; e, se pudéssemos interrogar retroactivamente todas as gerações extintas, veríamos que cada uma delas se exprimia do mesmo modo; que de certo ponto por diante o nome de mouras desaparecia inevitavelmente, para dar lugar ao de pagãs, e que finalmente esta regressão não passaria além da primeira geração cristã. Da mesma sorte, se possuíssemos todas as estátuas, que se têm sucedido no alto do castro, acharíamos talvez que a mais primitiva não era outra cousa senão uma Lucina ou equivalente. Dir-se-á que o facto só era provável numa localidade, onde as gerações se seguissem sem solução de continuidade desde os tempos pagãos até hoje. Mas é precisamente o que parece ter-se dado no monte da Senhora da Tocha. A coroa do monte é ocupada por uma povoação de trinta e tantos fogos e explica-se tão mal a escolha daquele alto para sede duma povoação em época relativamente moderna, como se explica bem a permanência de alguns moradores do velho castro, que por qualquer motivo não acompanharam a maioria dos seus habitantes na deserção do seu berço natal.
Demais, é muito significativo, não só a vitalidade que têm entre os moradores do castro as lendas dos mouros, mas a boa disposição que mostram em viver com eles na melhor camaradagem. Nada menos que a própria capela da santa habita uma moura. Por mais de uma vez tem sido vista, sob figura duma cobra amarela, já deslizando por baixo da porta da entrada, já debaixo do altar-mor. Se ela puder quebrar o encanto, nada obsta a que venha conglobar-se na população da freguesia, vivendo como toda a gente, conforme sucedeu à moura do caso seguinte: «Isto é certo – dizia a informadora, passou-se no tempo em que os homens traziam calções, mas não vai há muito tempo; porque, sim, a moda dos calções não vai há muito». E contava que numa veiga próxima à Ponte Nova, que ela apontava do castro, havia uma pedra muito branca, que os lavradores costumavam pôr na grade para rasar a terra, revolta pelo arado. Um dia, levantou-se questão entre dois quinhoeiros da veiga sobre qual deles se serviria da pedra. Como a questão se azedasse, um velho que estava presente, entendeu dever pôr cobro ao debate, e pegando na pedra atirou com ela ao rio, dizendo: «Pois nem há-de ser para um, nem para outro». Mas a pedra a cair no rio e a aparecer no mesmo sítio uma rapariga, que os lavradores, depois do seu primeiro espanto, correram a salvar do perigo em que a viam.
Esta história conta-se também em Donim; o teatro da cena é uma veiga, próxima do rio Ave. Provavelmente repete-se noutras partes; mas em Donim a moura, sentada na pedra, que boia como cortiça, segue pelo rio abaixo, penteando os cabelos e dizendo muito contente que vai para a sua terra, a Mourama; enquanto que na versão do castro a moura, depois de desencantada, fica na localidade e vive aí como uma compatriota que voltasse duma longa viagem. A Senhora da Tocha não tem só por devotos os habitantes do castro e arredores. Os povos de Fafe e de Armil vêm ali com um «clamor» por causa das«trovoadas», e os de Paços de Ferreira com outro, não se sabendo por qual motivo. Os primeiros têm direito a um almude de vinho, segundo um muito antigo legado, que ainda hoje se cumpre».

* Lenda do Senhor das Chagas (Freguesia de Infias) 

A freguesia de Infias, é rica em tradições e para o confirmar basta lembrar a Confraria do Senhor das Chagas que, segundo dizem tem muitos séculos de existência.
E se existem documentos com datas muito antigas, não há nenhum que ateste a data da sua fundação.
Reza a lenda que esta imagem ainda tem vestígios duma outra que, há muitos séculos, um cruzado mandou esculpir a fim de lhe colocar uma coroa de espinhos que encontrou numa praia do deserto, quando regressava da terra santa. Depois de ali ter combatido tenazmente ao lado dos cristãos, de volta à sua pátria, viu-se atacado pela lepra, e abandonado pelos companheiros, que o deixaram ali para que fosse comido pelas aves de rapina.
Arrastou-se para uma praia, a fim da aragem fresca do mar lhe suavizar aquele calor imenso provocado pelo sol escaldante do deserto, aumentando de intensidade ao bater-lhe nas feridas.
Talvez devido à brisa do mar adormeceu num sono profundo. Quando acordou viu ali junto a ele uma coroa de espinhos que lhe pareceu ter ainda sangue vivo, e que ele imaginou ser a do Nazareno, que certamente teriam atirado ao mar.
Devido ao sangue em que ela estava envolta, e apesar de ele sentir uma enorme força que o impelia para ela, não ousava pôr-lhe a mão, pois pensava que se na verdade ela fosse a do Cristo crucificado, ele não era digno duma honra tamanha.
Ali permaneceu junto a ela, olhando aqueles espinhos que cravados na cabeça provocariam dores terríveis, muito superiores às que ele sentia devido à lepra que lhe cobria o corpo, e adormeceu.
Durante o sono, apareceu-lhe um anjo, que lhe pediu para transportar a coroa até à terra dele para que os judeus se apoderassem dela.
Quando acordou, e ao ver-se impossibilitado em seguir viagem, pensou escondê-la a fim de obedecer às recomendações do anjo, mas ao pôr-lhe a mão sentiu uma reacção tamanha, e logo se viu completamente curado.
Numa capelinha, da qual já não há vestígios, a coroa foi colocada sobre a imagem que o cruzado mandou esculpir, e todos os anos, no dia três de Maio a certa hora do dia o sangue brotava vivo das feridas provocadas pelos espinhos e até havia quem afirmasse que isso correspondia ao dia e hora em que Cristo foi coroado.
Sabemos que não corresponde à verdade, porque a Páscoa nunca excede o mês de Abril, mas o certo é que isso incutiu tanta fé no povo que começaram a fazer nessa dia uma romagem de penitência e assim a imagem do Senhor das Chagas era transportada num andor desde essa capelinha em Infias até à Senhora do Monte que fica no extremo das freguesias de Nespereira e Serzedelo.
De terras bem longínquas, e com vários dias de viagem a pé, vinham romeiros carregando cruzes pesadíssimas que transportavam aos ombros num percurso de alguns quilómetros. Dizem que anos houve, em que iam mais de cento e cinquenta cruzes. Traziam como ponto de referência um moinho de vento, já que a igreja ficava bem perto dele.
Com o decorrer do tempo, essas cruzes que eram pesadíssimas, foram-se transformando noutras de mais fácil maneio. Ao paus que lhe serviam de suporte, passaram a ser utilizados em cenas de grande pancadaria devido às rivalidades que se foram criando entre devotos do Senhor das Chagas e o povo de Serzedelo, que para ali se deslocava nesse mesmo dia com uma procissão.
Isto durou até ao 1920, ano em que se construiu a capela do Alijó. A partir de então todas as procissões passaram a dirigir-se para lá.

* Lenda de S. Gonçalo (Freguesia de Tagilde) 

Tagilde é uma freguesia muito graciosa, engastada no termo Sul da Serra de St.ª Catarina, cujo docel é a Penha, descaindo suavemente na direcção Norte- Sul até beijar as águas, (recentemente poluídas) do Rio Vizela.
Situa-se no aclive do Monte de S. Bento e esta freguesia caracteriza-se como sendo, bela, harmoniosa e colorida. Em Tagilde, na casa do Paço de Arriconha ou Riconha , pensa-se que terá nascido, S. Gonçalo de Amarante, seus pais eram fidalgos e pessoas de grandes posses e valores.
Porém, diz-se que a casa onde havia nascido S. Gonçalo, era mais conhecida como Paço de Gonçalo Pereira, e que seu pai chamava-se Gonçalo. Quanto a seus pais, pouco se sabe além do referido, a não ser que eram muito ricos e profundamente religiosos.
Em meados do século XVII, em homenagem e respeito a S. Gonçalo, fora mandada levantar, pelos Tagildenses, uma capela simples e pouco decorada.
O segundo monumento, em honra de S. Gonçalo e de grande valor, consiste numa valiosa peça de ourivesaria portuguesa do século XII ou XIII (?) e que segundo a tradição, presidiu ao baptismo de S. Gonçalo na antiga e desaparecida Igreja de Tagilde, a Cruz de S. Gonçalo.
Descrevendo estes dois monumentos poderemos dizer que, a Capela de S. Gonçalo é um edifício singelo e sem arrebiques ornamentais, tanto a nível exterior como interior, tendo sob a principal porta um pequeno alpendre. Interiormente tem o comprimento de 6,73m e de largura 4,84m, possui um rudimentar altar em talha pobre com uma única imagem, a de S. Gonçalo.
Outrora, festejava-se religiosamente e profanamente, o S. Gonçalo a 10 de Janeiro, de cada ano até ao primeiro quartel do século XX, e muita gente acorria a esta capela anualmente da Igreja de Tagilde.
Quanto á Cruz de S. Gonçalo, deve ter sido fabricada entre os inícios do século XII aos fins do século XIII. Devido ao seu desaparecimento, é-se forçado a tornar credível a descrição do Abade de Tagilde, em que este a descreve como sendo de prata sobreposta em madeira, ostentando em alto- relevo ornamentações de folhas de vide e terminando as hastes em forma de flor de lís; na frente, no transepto tem as letras I.H.S., e quase nas extremidades medalhões sobrepostos com gravuras em alto- relevo que representam: no alto da Cruz, uma figura masculina nimbada sustentando um livro na mão; no braço direito um livro na mão; no braço esquerdo, uma imagem da Virgem; no fundo, um anjo com papel de música nas mãos; na parte posterior tem outros quatro medalhões, não sobrepostos com os símbolos dos Evangelistas; no alto da Cruz, a águia; no braço direito o anjo; no esquerdo o leão; no fundo o boi de asas.
Por último, pode-se concluir que, de facto, em Tagilde, S. Gonçalo foi um marco na História e Tradição desta recatada freguesia de Caldas de Vizela, e que por sua vez merece o seu devido reconhecimento.

* Os Martírios 

A tradição dos martírios perder-se-á nos tempos longínquos, vindos da Idade Média, não de forma pura mas fruto de uma evolução. Nessa altura, a expressão popular religiosa era muito forte, muito arreigada no povo. A sua origem poderá estar, possivelmente nos autos da Paixão, encenações e representações dramáticas.
Estas peças teatrais, bíblicas ou religiosas foram muito comuns na Península Ibérica, entre os séculos XIV e XVIII, algumas delas ainda vividas nos nossos dias.
No Teatro
No teatro, as cenas (Autos) dramáticas, representativas da Paixão de Cristo, vêm dos séculos XIV e XV. Da literatura castelhana do século XV, conserva-se um auto da paixão de Lucas Fernandes, outro de Afonso del Canto. Na Catalunha, ainda se conserva uma visita ao sepulcro do século XIV. E em França, há ainda a Passion Didot, pela primeira vez representada em Paris, em 1450.
Desde a Idade Média, os relatos da Paixão foram encenados em actos sacramentais extra-litúrgicos, e assim foram permanecendo em alguns países como a Alemanha e a Espanha. No nosso país enquadrar-se-á neste entendimento uma representação teatral ou um auto numa povoação de Trás-os-Montes, “Vilar de Perdizes”.
Na Música
Para além dos autos dramáticos existiam, também, composições musicais sobre o texto das narrações evangélicas da Paixão, desde o século IV em melopeia pré-gregoriana, de modo especial os relatos da paixão.
Desde a segunda metade do século XVII compuseram-se paixões com melodias gregorianas e, a partir de 1700 a poesia livre começou a substituir o texto bíblico.
Começará a raiz ou origem dos martírios.
Bach foi um compositor que conservou intactos os textos bíblicos, ainda que rimados. Depois dele, a Paixão tornou-se superficial devido ao sentimentalismo da poesia ao fraco rigor das composições. A propósito, refira-se que a reposição da Paixão segundo S. Mateus, em 1829, cem anos depois da sua estreia, contribuiu para a redescoberta das suas obras. E o sentimentalismo aqui referido, é esse mesmo que iremos encontrar nos poemas, cuja música será essa melopeia entre o gregoriano e a melodia árabe, embora de um fio melódico em tom menor.
Os Martírios em Vizela
São privilégio no Minho, mas só em Vizela eles se manterão com certo vigor, ainda que dando já indícios de um certo desgaste ou cansaço. Só as pessoas de idade os sabem cantar e, no tempo da mocidade delas isso era comum. Por outro lado, de uma tradição ainda viva em Vizela, esta é exclusiva do lugar das Teixugueiras. Só neste lugar, e em mais nenhum, eles se cantavam.

* A Rosinha Tuntum 

“Como este costume entrou em decadência, foi-me dito haver uma senhora, entre muitas outras que ainda os sabe cantar muito bem. É a Rosa Nunes, ou Tuntum, que nasceu e toda a vida morou nas Teixugueiras.”
A Rosinha Tuntum é uma senhora cheia de vida e boa disposição apesar dos seus 65 anos. Os “versos” dos martírios foi a sua mãe que lhes transmitiu verbalmente e que ela fixou na memória. A mãe dela sabia ler e escrever muito bem. A Rosinha Tuntum, essa, porque assim era uso no seu tempo de rapariga, não foi para a escola. Mais tarde, nos seus trinta e tantos foi obrigada a frequentar uma escola de adultos. E ela, de sacola ao ombro cantava para quantos quisessem ouvir:
Ó marido faz-me sopa,
Mete a comida à fornalha.
Quando vier da escola,
Dou de comer à canalha.
A descrição dos Martírios
A Rosinha Tuntum aprendeu-os nos seus 16/17 anos, da boca de sua mãe que também já os cantava desde que fora rapariga também.
Quase sempre, cantados nas Teixugueiras e sempre à noite. Só na quaresma, começando a cantá-la a partir da quarta-feira depois da “sarra-se a velha”. Aliás só se cantavam às quartas e sextas-feiras da quaresma. Quando se cantavam cá em baixo nas Teixugueiras ou era no caminho ou à beira da estrada, com dois grandes grupos: um, aí de umas oito pessoas, que “botavam os versos”; e um outro, muito maior, que respondia.
Numa altura em que a procissão da via-sacra esteve a passar de novo pelo Mato, a Rosinha Tuntum e outras mulheres, tinham-se preparado para os cantar do alto do monte. A procissão levou outro rumo e os Martírios não se cantaram. E quando eles se cantavam quase em multidão, punham muito cuidado no ensaio, para eles saírem bem. Senão, era “pecado” cantá-los sem respeito, e fora do tempo da quaresma.

As quadras dos Martírios 

Então, a Rosinha Tuntum, fielmente, lá foi ditando, uma a uma, todas as quadras, num total de 21.

Oh, meu Senhor do Calvário,
Vossa cruz é de oliveira
Foste o mais lindo cravo
Que nasceu entre a roseira.

A Vossa Divina Cabeça,
Coroa de espinhos cravada
Entre dores incríveis
Fonte de sangue difamada.

Os Vossos Divinos Cabelos
Foram em sangue ensopados
Sangue que veio remindo
Os nossos feios pecados.

A Vossa Divina Testa
A picaram c’um escolheiro
Por mor dos meus pecados
Jesus Cristo verdadeiro

Os Vossos Divinos Olhos
Derramados pelo chão
Pelo amor dos meus pecados
Senhor Deus, tanta paixão!

O Vosso Divino Nariz
De vós tornais o cheiro
Por amor dos meus pecados
Jesus Cristo Verdadeiro

Os Vossos Divinos Lábios
Roxos como o próprio frio
Por amor dos meus pecados
Senhor Deus, tanto Martírio!

À Vossa Divina Boca
Vos deram fel amargoso
P’ra bem guardar nossas almas
Castigo eterno, horroroso.

Às Vossas Divinas Faces
Vos deram mil bofetadas
Por duros, feroz algazes,
Escarnecidas, pisadas!

O Vosso Divino Pescoço
De grossas cordas ligaram
De rua em rua com ele
Como rei Vos arrastaram

Aos Vossos Divinos Ombros
Vos puseram um madeiro
Por amor dos meus pecados
Jesus Cristo Verdadeiro

Às Vossas Divinas Mãos
Vos pregaram numa Cruz
Por amor dos meus pecados,
Misericórdia Jesus!

O Vosso Divino Peito
Foi cruelmente rasgado
Que dele correu abundante
Remédio para o pecado

O Vosso Amável Coração
Pois que o abriram com uma lança,
Com vida que nele entremos
Cheios de amor e confiança

À Vossa Divina Cinta,
Vos puseram uma toalha
Que nela se representa
A Vossa santa mortalha

Os Vossos Divinos Joelhos
De rastinhos pelo chão
Por amor dos meus pecados,
Senhor Deus, tanta paixão!

Aquela mulher Verónica
Que vos saiu ao caminho
A limpar o Vosso rosto
A uma toalha de linho

A Vossa Divina Cinta
De grossas cordas ligaram
De rua em rua com ela
Que a morrer vos arrastaram.

Se quereis saber a verdade
Assubi àquele oiteiro
Vereis as ruas regadas
Com o seu sangue verdadeiro

Por nascimentos infinitos
De tanta amarga paixão
Temo Jesus, concedei-nos
Dos nossos crimes perdão…
Estes são os “versos” que um primeiro grupo “botava”, ao que o outro grupo, mais numeroso, “respondia”:

Padeceu grandes tormentas
Duros martírios na Cruz
Morreu para nos salvar
Bendito seja Jesus!

* A Tradição dos Reis e das Janeiras 

Cada terra com o seu uso e cada roca com o seu fuso é o que diz o povo em relação aos usos e costumes tradicionais, onde cabe o cantar dos Reis ou das Janeiras, muito comum em Vizela. Aliás, desde sempre muito comum a todo o Norte e regiões beirãs.
Perde-se no tempo a origem deste costume do cantar das Janeiras e dos Reis, que apenas diferiam no pormenor do tempo: as Janeiras eram cantadas de 31 de Janeiro – e depois até ao S. Sebastião.
Como em tantas outras tradições cristãs, também estas das Janeiras e dos Reis, na evocação da adoração ao menino Jesus pelos Reis Magos, foi para substituir rituais idênticos vindos do paganismo. Com efeito, as Janeiras eram um culto prestado ao Deus Jano. Como se disse anteriormente, a origem deste costume perde-se na memória do tempo: já no século XIII, a ele se fazia referência.
Hoje, as Janeiras ou os Reis, são um costume, desde os simples cantares em grupo – as reisadas e as festadas – até às representações teatrais populares, em honra dos reis magos na adoração ao Menino Jesus e a embaixada da apresentação e desejo de boas festas, presentes de ano bom.
Em Vizela, há uns trinta anos atrás, este costume era muito activo e era lindo ouvir os grupos a cantar os reis pelas noites luarentas e de geada. Depois decaiu. No entanto, a necessidade de angariação de dinheiros para os mais diversos fins de algumas colectividades, fizeram ressurgir e dinamizar esta tradição, sendo belíssimos os cantares dos reis da nossa Banda de Música. Foi com receitas dos cantares dos Reis que se construíram pedaços do estádio de Futebol Clube de Vizela.
Por outro lado, a sensibilidade cultural para os costumes e tradições tem vindo aumentar, recuperando e dinamizando esta bela tradição. Houve alguns festivais de Janeiras e de Reis em Stº Adrião, costume que tem vindo a manter-se; há um grupo de reis da Casa do Povo; há a Banda de Música a cantá-los; há outros grupos. E todos os anos, em Vizela tem vindo a realizar-se um desfile de grupos a cantar os reis pelas diversas ruas da cidade.

* A Senhora Ana da Casota 

Foi na freguesia de Infias, freguesia de povo trabalhador, dinâmico e corajoso, que morou a senhora Ana da Casota.
A Senhora Ana da Casota foi um farrapo de vida, que no esquecimento se apagou, e que dos caminhos da nossa terra, e mesmo do nosso Portugal, fez o seu calvário, carregando, isto é, empurrando a sua “casa”.
Os jornais, há muitos anos, dela fizeram reportagens de sensação numa altura em que num qualquer mês, ela conseguiu levar até Fátima esta “sua casa”, isto é, a casota.
A recordação que toda a gente tem quando se fala da Senhora Ana da Casota é dolorosa, triste. Arrastando-se pelas nossas estradas, quelhas ou praças, puxando a sua casota, como qualquer animal de carga. Mulher alta. Magra. Olhar distante, frio e triste. Mal e pobremente vestida. Às vezes falando sozinha.
Muita chuva apanhou ela na sua pobre “casa” que eram apenas quatro tábuas ao alto e uma fazendo de tecto.
A rapaziada metia-se com ela, insensível e irreverente para não dizer malcriada, provocando-a, e gritando:
- Ó senhora Ana da Casota!...Ó senhora Ana da Casota!...
Ela respondia, atirando pedras e a rapaziada retorquia de igual forma, porém com a mão mais certeira.
Mas porquê, ter acontecido isto a esta mulher?...
Ainda nova e já depois de mãe, sofreu de uma trombose que a deixou mentalmente bastante débil. E pouco depois, morre-lhe o marido. A partir daí, deixa de ter a percepção de muitas realidades e obrigações a que estamos sujeitos como cidadãos que somos de direitos e obrigações.
Um dia foi avisada que tinha de pagar direitos sobre a casa…respondeu:
- A casa é minha! Não tenho que pagar nada a ninguém!
Pouco tempo depois a casa foi vendida, a senhora Ana dela desalojada, passando a viver sob as estrelas do céu, sem eira nem beira, até que alguém se lembrou de lhe fazer uma casota de madeira, com três rodas.
E passou, então, esta casota a ser a “casa” da senhora Ana.
Semi-louca passou a arrastá-la consigo através da nossa terra e de outras terras, parando uns dias num sítio, outros noutro sítio…e quando encontrava uma subida pela frente, alguém, misericordioso dava-lhe uma ajuda…
Nos sítios onde estacionava alguns dias, era frequente ouvi-la pedir:
- Não tem uma “croua”?...Quem tem muitos filhos é rico! Se cada filho der aos pais uma “croua”, eles já têm mais que eu, que só tenho esta…

Ficava-se a olhar, pensativa para a “croua” que lhe fora depositada na palma da mão e que, instantes depois guardava no nó do lenço que tirara do seio e onde volta a recolhê-lo. E dava, então, uma gargalhada….
E assim foi o peregrinar desta pobre mulher semi-louca…uma mulher que morreu esquecida e desprezada pela sociedade que ajudou a construir com o seu trabalho.

* S. Bento das Peras 

Se hoje a devoção de Vizela e arredores ao S. Bento conhece ainda muita adesão, ela foi-o muito mais intensa e pura há uns 50 anos e mais, mas que degenerou para o que hoje é, sobretudo de há uns 20 anos para cá.
Há 50 anos, pela Páscoa, no S. Bento das Pêras, a festa era superior à da romaria de hoje, sobretudo no cumprimento de promessas de fogo de ar.
Variadas promessas vinham satisfazer com oferendas, desde açafates de ovos, a ramos de cravos, milho e sacos de sal daquele de salgar carnes de porco, oferta esta a pagar graça sobre “coisas ruins” de que ele também é advogado.
Mas estas graças não eram retribuídas em silêncio. Não. As redondezas ficavam cientes dessa gratidão. Formavam-se grupos de romeiras, com principal incidência aos domingos de tarde. Eram entre cinco e nove. E a chefe de cada grupo transportava na cabeça cestinhas com o merendeiro, a repartir, depois, por cada acompanhante. E assim em grupos, lá iam subindo as encostas do S. Bento, dos lados da cidade, cantando…As chefes de grupo, dos serões ou novenas, “botando” as cantigas. Os acompanhantes respondendo…

Ao sair da nossa porta,
No descer da escaleira,
S. Bentinho milagroso
Vinde esperar a romeira…

S. Bentinho milagroso
Vinde esperar a romeira!...

S. Bentinho milagroso,
Aqui tem o meu serão,
Que lhe tinha prometido,
Por curar o nosso irmão…

Que lhe tinha prometido,
Por curar o nosso irmão!...

S. Bentinho milagroso,
Seu caminho tem pedras!
Se não fizesse milagres,
Aqui não vinha ninguém!...

Se não fizesse milagres,
Aqui não vinha ninguém!...

S. Bentinho milagroso,
Seu cantinho tem areia,
Eu já rompi os sapatos,
Não quero romper a meia…

Eu já rompi os sapatos,
Não quero romper a meia!...

Numa recolha de quadras conseguiu-se um inventário de quarenta.
Outra vezes, eram grupos de homens e mulheres, constituídos pela família inteira da pessoa miraculada, que também subia o monte amortalhada ou transportando formas humanas de cera. Subiam a encosta, cantando também.
Com a revolução industrial que feriu de morte muito hábito que fiel e religiosamente vinha sendo transmitido de gerações muito recuadas, o cumprimento de promessas com romeiras começou a ser ao sábado de manhãzinha.
Ainda há vinte anos era assim.
Dada a fuga da juventude da vida do campo, estando já na terceira idade muitas romeiras de há cinquenta anos, e outras a passos largos caminhando para essa terceira idade, vão rareando, assim, as fiéis depositárias desta linda tradição, pelo que há razões fundamentadas para se acreditar que o fim irremediável dos “serões” e das novenas está próximo.

* A Ceia de Natal 

Pelo Natal e numa simbologia do significado corrente de que este dia é o dia da festa que consagra em volta da mesa da ceia o próprio espírito da casa e da família, presente nos vivos e na evocação dos mortos queridos.
Em Vizela, tanto quanto se sabe, este pormenor com o ritual que se descreve a seguir, vai perdendo a sua continuidade, motivado isto pelo sentido cristão que foi dado ao Natal, desapegando-o de muitos costumes e práticas associados à evocação dos mortos, designadamente sob a forma da crença na comparência dos mortos de cada família, na casa onde viveram.
Mesmo assim, e pelo Natal, migalhas que caiam da mesa da ceia, não são varridas pois que, de noite, os “anjinhos” virão comê-las. Noutras casas, o costume era ligeiramente diferente: sobre a mesa da ceia ficava apenas a toalha enrolada com as migalhas dentro para que de noite “os anjinhos” viessem comê-las. E só no dia seguinte elas eram sacudidas e asseada a mesa.
A ceia de Natal e um outro costume que existiu em S. Miguel e noutras freguesias há décadas estão relacionados com a ideia de que o morto revive num outro mundo. Daqui também, o cerimonial do banquete dado ao morto ou a comida enterrada com este, aqui tomando sentido os lanches ou aperitivos ou refeições dados no velório e aos componentes das confrarias. Isto é, mudam-se as religiões, os ritos ancestrais mantêm-se. E com o tempo, este banquete foi substituído pela distribuição na forma indicada e que ainda há uns 30 anos era muito comum. E uma vez mais, entre os cristãos católicos, este costume degenerou ainda na oferta feita pelos familiares do morto ao sacerdote, a título de ofertório ou dobrada. Era o pé de altar.

* As Fogueiras de S. José 

As Fogueiras de S. José realizam-se na véspera de S. José, a 18 de Março. E em cada largo, sítio ou lugar, faziam-se grandes fogueiras e o povo das redondezas juntava-se e à volta delas rodava, cantando-se ao S. José.
Para já, não é possível ainda saber-se da origem deste costume, exclusivo da região de Vizela e ainda hoje, em cada 18 de Março, é lindo verem-se muitas e altas fogueiras espalhadas pelo vale e pelas encostas das montanhas voltadas para Vizela. Janelas de amor e fogo do céu para a terra. Ou desta para o Céu?
Era costume dançar à volta da fogueira, de mãos dadas, até ao amanhecer. Pela madrugada dentro fazia-se café nas próprias fogueiras (em cafeteiras), ia-se buscar pão quente às padarias e, no dia seguinte, apanhavam-se as cinzas para, posteriormente, deitar nas hortas, porque era bom fertilizante.
E, no dia de S. José, nas casas de Vizela, era costume comer-se caldo de castanhas piladas, feijão branco e netos (rebentos tenros dos troços de couves). Comia-se, também, arroz de polvo.

* O Cerimonial de “Sarra-a-Velha” 

A meio da Quaresma acontecia um ritual que era, e ainda é, embora com tendência ao desaparecimento, de resíduo carnavalesco. Numa espécie de “festa”, um cerimonial de “descompressão”, de abrandamento ou de um certo repouso ligeiro.
No ritual mitológico das suas origens, este cerimonial era como que a “expurgação”, a “catarsis” das últimas impurezas que tivessem ficado da transição do solstício para o perfeito cultivo da terra na Primavera. Um ritual, portanto, comprometido com a fertilidade das terras. E assim, este “intervalo” ou este “corte” a meio da quaresma, permitia o retorno das máscaras.
Faziam-se bonecos de palha e de trapos, ao sabor da habilidade e fantasia de cada um. Depois exibiam-se em passeatos, em grupos munidos de latas e paus, num ruído infernal simulando tambores. Nesse cerimonial, haviam pessoas que eram “atingidas” com determinados comentários. Sobretudo pessoas idosas e mulheres às quais, alguém do grupo, quisesse mal. E na noite da serração da velha, até dos montes à volta se nomeavam nomes através de funis.
Na freguesia de S. Miguel, de noite do alto dos penedos do lugar, através de búzios, funis ou outros instrumentos que pudessem dar mais propagação e potência à voz de modo a ser nítida à distância, publicavam-se nomes de pessoas que não se confessavam ou tivessem desgraças morais em casa.

* O Domingo de Ramos 

A Quaresma, contudo, iria conhecer ainda dois outros tempos de certo humor a contrastar com o ambiente penitencial e de privação vividos no seu percurso.
Na madrugada de cada Domingo de Ramos, os rapazes roubavam tudo quanto pudesse ser transportado, desde o simples vaso de flores até ao carro de bois. Ou até pinheiros da bouça. E bem altos! E tudo isso de madrugada era transportado para o adro da igreja e quem quisesse, depois que fosse lá buscar! Às raparigas novas, que namorassem, há pouco tempo ainda, à porta de casa, punha-se-lhe um troço de couve, florido.
De há quatro anos para cá temos vindo a ser surpreendidos com o ressurgimento deste costume. E o adro e escadaria da nossa igreja nova, nesse domingo, têm sido invadidos pelos mais variados objectos, mas sem qualquer cuidado, ao ponto de virem deixando danificado o seu belo escadario.