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Historial da Toponímia de Vizela
* Rua Fonseca e Castro (S. João / S. Miguel)
A rua Fonseca e Castro, cuja antiga denominação era rua Elias Garcia que homenageava o ilustre Republicano, natural de Almada, resulta de uma deliberação que a Comissão Instaladora de Vizela, tomou no primeiro ano da sua vigência, na ideia de expressar de uma forma pública e permanente, um sentimento de admiração e respeito pela obra realizada por Manuel Alves Machado da Fonseca e Castro, como Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vizela e particularmente pela sua acção, como Presidente da Junta de Turismo de Vizela. Assumido o cargo de Presidente da Junta de Turismo de Vizela, em 1947, toda a obra de Fonseca e Castro, foi indubitavelmente de grande valor. Deve-se a este homem a iniciativa de mandar construir o edifício sede, na rua Dr. Alfredo Pinto, onde hoje, provisoriamente funciona a sede de Município de Vizela; o campo de mini - golfe e o recinto turístico - desportivo, presentemente explorado pelo Park Club, que dispõe de discoteca e salão de eventos, e piscinas. Ainda pela mão de Fonseca e Castro, foram organizadas em Vizela, durante cerca de trinta anos consecutivos, arraiais minhotos, chás dançantes e concursos de danças de salão, gincanas de bicicletas, provas de motociclismo como o 1º. Motocross de Portugal e vários ralis automóveis, tendo um deles sido, usado pela primeira vez no nosso país, o sistema foto - eléctrico para, com rigor, se assinalar a passagem dos concorrentes pela meta de chegada. Foi, no decorrer da milenária história de Vizela, um dos seus vultos mais importantes.
* Rua Dr. Alfredo Pinto (S. João)
Mais um médico vizelense com o nome na esquina de uma das nossas ruas. Alfredo Pinto de Sousa e Castro, ou melhor Dr. Alfredo Pinto, como sempre o ouvi designar, era um homem alto, moreno, de traços fortes, porte distinto, ar distante, mas só na aparência. Dele guardo, como certamente todos os vizelenses, que o conheceram, uma grande e inesquecível recordação. Nasceu e morreu, no mês de Novembro, a 27, em 1888, e a 4, de 1957, respectivamente. Filho de uma distinta família de Vizela, formou-se na Faculdade de Medicina do Porto, em Junho de 1918, com a tese de licenciatura intitulada "As Águas de Vizela". Concluído o curso, mas ainda antes da defesa da sua tese, viu-se forçado a entrar no exercício da sua profissão, devido a uma epidemia de tifo exantemático, exercendo as funções de subdelegado de saúde auxiliar. A sua tese contém um pequeno prefácio muito interessante, denotando certo espírito contestatário e preocupações formais. A respeito do seu trabalho, diz Alfredo Pinto, "Febrilmente escrito, açodado pelo tempo e voando, aperta, eu não fico - e disso perdões peço a todos os Vieiras - pela pureza da linguagem empregada". Mas o seu português é sóbrio e elegante, em nosso modo de entender. Segue-se uma introdução, que não muito vulgar em teses científicos. Começo pela citação de um texto literário, no fim e no qual o médico vizelense, com graça, faz uma interrogação retórica: "Sabem donde saquei esta sita? Do livro "No Minho", de D. António da Costa". E prossegue com uma rápida digressão histórica sobre as águas termais de Vizela: "Depois disto, nada mais teria que dizer, se não me assomasse o desejo de preambular um pouco com o leitor acerca do glorioso passado clínico dessa encantadora estância". E sempre com graça e humor, acrescenta: "Ignoro se à sua acção curativa alguma formosa ninfa presidiu, se algum Rei ou Potentado, suas virtudes deveu o seu real nascimento. O que urge saber, o que é necessário conhecer a bem da humanidade que sofre, é que nas águas sulfurosas de Vizela, dezenas de milhares de enfermos, têm encontrado todos os anos, se não, uma cura radical, pelo menos, um grande alívio aos seus males e achaques."... "Vizela, é sem dúvida, uma das poucas termas de Portugal, que não necessita de reclamar as suas virtudes ou apregoar as suas curas. Aqui, adentro do nosso pequenino e tão grande Portugal, como lá ao longe, além do Oceano, no Brasil..., o seu nome é sempre relembrado com gratidão, amor e carinho". Faz seguidamente um rasgado elogio do Dr. Abílio Torres, que considera o primeiro hidrologista português e lamenta que a sua morte, ocorrida em 1917, não tivesse sido a consagração a que por muitos títulos tinha direito. E só depois entra na parte específica da sua tese, versando o mérito terapêutico das águas termais de Vizela. Alfredo Pinto foi um digno continuador da obra excepcional deixada por Abílio Torres, sendo segundo Director Clínico do Estabelecimento Termal, cargo que manteve até ao fim dos seus dias. Soube passar com eficiência, competência e dedicação os anos vinte, trinta e quarenta, muito importantes na história do Termalismo. Quantos não se lembrarão ainda de Alfredo Pinto a sair do seu gabinete, com ar apressado, para se inteirar, como Director Clínico, do funcionamento das várias secções do Estabelecimento Termal? Quando já se aproximava o ocaso da sua vida e a indústria têxtil começava a abafar as Termas, sorvendo na voracidade do seu desenvolvimento hotéis de grandes tradições, é ainda Alfredo Pinto quem consegue "in extremis" salvar o Hotel Sul Americano. Junto dos principais accionistas, demonstra-lhes que não há termas que possam resistir à inexistência, de um bom acolhedor hotel e que o "Sul Americano" deve ser comprado e integrado no património da Companhia de Banhos de Vizela. E todos se rendem a este médico, que passou a vida a lutar pelo engrandecimento das Termas de Vizela. Mas Alfredo Pinto, para além da sua acção como hidrologista, foi ainda um excepcional médico de clínica geral. A sua intuição para diagnósticos era célebre e muitos vizelenses ainda poderão testemunhar quanto lhe devem. Mas este homem inteligente e extremamente sensível também sentiu alguns desgostos. A política do chamado Estado Novo não o entusiasmou e isso foi causa de alguns sofrimentos para ele. Em 1929, a Comissão de Turismo, nomeada pelo Governo, não lhe confiou a redacção do texto de um "Álbum Artístico" sobre Vizela, destinado a figurar na Exposição de Sevilha. Foram muitos os vizelenses que se revoltaram com essa atitude e decidiram ir a casa onde nasceu e viveu Dr. Alfredo Pinto, numa manifestação de desagravo, na qual foi lida uma mensagem pelo Dr. Manuel Bravo. Segundo o "O Primeiro de Janeiro", participaram na manifestação centenas de pessoas e, entre elas, muitas das figuras gradas da terra, cujos nomes aquele jornal menciona. Não ficaram por aí os dissabores que os coriféus do então considerado "novo regime" político causaram ao Dr. Alfredo Pinto, que, contudo, soube sempre, manter uma posição que acabou por ser respeitada. Muito teríamos ainda a dizer sobre este homem excepcional, que integrou o universo da nossa infância e adolescência. Ainda hoje nos interrogámos sobre o que levava o Dr. Alfredo Pinto a conversar connosco como se estivesse perante uma pessoa adulta, falando da vida, da morte, da natureza do ser humano e da importância da cultura. Ainda bem que os vizelenses lhe consagraram o nome numa das ruas da sua terra, sendo certo que nós sempre guardaremos dele a imagem de um Homem culto, carinhoso e romântico. Pacheco, Maria José Pacheco, in Notícias de Vizela, 2002
* Rua Dr. Abílio Torres (S. João /S. Miguel)
Quando se passa numa rua e atenta na pequenina placa toponímica, é natural que perante nós surja um Homem ou uma Mulher nos seus principais traços biográficos. Pedimos desculpa pela precariedade das nossas informações, mas o leitor amigo poderá completá-las, escrevendo para o Correio dos Leitores (Jornal Notícias de Vizela), as achegas que possa dar, desde já agradecidas. A rua principal da nossa terra, um troço da Estrada Nacional 105, ostenta o nome do Dr. Abílio Torres, de seu nome completo Abílio Costa Torres. Nascido no Vale de Vizela, 1846, formou-se em Medicina pela universidade de Coimbra, tendo sido o primeiro director do estabelecimento termal de Vizela, devido naturalmente à sua especialidade de hidrologista. A fama das águas termais de Vizela já vinha de longe, mas as condições do seu aproveitamento, na Lameira, eram bastante precárias, com as pessoas aglomeradas em "banhos" colectivos, nem cómodos, nem higiénicos. Para obviar a esses inconvenientes, constituiu-se a Companhia de Banhos de Vizela, que construiu o magnífico edifício termal, que é ainda hoje o centro termal de Vizela. Concluída a construção, porém, verificou-se, com surpresa, que as águas canalizadas desde a Lameira até ao balneário, perdiam nesse trajecto as suas propriedades terapêuticas, designadamente de temperatura e composição química. O número de aquistas começou a diminuir de ano para ano. A Companhia de Banhos confere então poderes ao Dr. Abílio Torres, para superintender nos trabalhos de reformulação da captação e encanamento das águas. Em boa hora o fez! Hidrologista esclarecido, a par do que havia de mais adiantado no estrangeiro, Abílio Torres fez substituir canalizações e reservatórios, acompanhando as obras a par e passo, muitas vezes até noite fechada. O resultado obtido excedeu todas as expectativas e as Termas de Vizela reconquistaram a sua posição cimeira entre as estâncias hidrológicas portuguesas, mercê do exemplo e saber do Dr. Abílio Torres. Participações em congressos da especialidade realizados no estrangeiro, onde teve ocasiões de defender muitas vezes as termas portuguesas, contactos com cientistas de nomeada, etc, fizeram do Dr. Abílio Torres uma autoridade em matérias de hidrologia por todos reconhecida. Não se julgue, porém, que o Dr. Abílio Torres vivia somente para as Caldas. O progresso de Vizela deve-lhe imenso, porque soube provocar e incentivar muito do que então se fez nesta terra. Convenceu a Companhia de Banhos a criar o belíssimo Parque das Termas, cuja implantação foi dirigida pelo notável horticultor portuense, José Marques Loureiro, e que Vizela ainda pode desfrutar. Verdadeiro homem de acção quis que as Termas de Vizela pudessem equiparar às suas congéneres da França e da Alemanha, quer em apetrechamento, quer na animação social e cultural, com festas e passatempos para os aquistas. O seu gosto pelas corridas de touros e de cavalos, e até de garranos, bem como os torneios de "cannotage", torneios de ténis, passeios turísticos, etc., passaram a animar as épocas termais e atraíram muita gente a Vizela. O seu nome aparece entre os promotores da criação da Filarmónica Vizelense, e da Associação dos Bombeiros Voluntários de Vizela, a cuja primeira direcção presidiu. Foi membro também da comissão que escolheu o terreno para o Hospital de Vizela. Médico distinto, esteve sempre ao serviço de todos, ricos e pobres, e daí a estima e veneração que tinha em Vizela. A consideração que desfrutava era geral. Muitos anos antes de morrer, em 1917, já a rua onde morava tinha o nome de "Dr. Abílio Torres", consagração merecida do Homem, e do Médico, que honrou a medicina em Portugal e no Estrangeiro e elevou bem alto o nome da terra vizelense. Pacheco, Maria José Pacheco, in Notícias de Vizela, 2002
* Rua Joaquim Pinto (S. João)
Esta rua, antiga “Rua de S. João”, é a mais que merecida homenagem e que se traduz em motivo de orgulho para os familiares do “filho adoptivo” de Vizela. Joaquim Pinto de Sousa e Castro, mais conhecido por Joaquim Pinto, nome que ficou escrito na toponímia vizelense, graças ao espírito empreendedor e de benemérito. Era afinal o avô do ilustre e saudoso médico Alfredo Pinto, que tantas saudades deixou naqueles que tiveram a dita de privar com ele, e que integra também a nossa toponímia. Joaquim Pinto foi daqueles homens que acreditaram nas potencialidades que o Turismo termal de Vizela poderia oferecer. Era um empresário do Norte, pensa-se que terá nascido em Paredes, e que ganhara uma fortuna considerável para a época, conseguida numa experiência aturada no intercâmbio comercial que manteve durante anos com a América e, mormente, com o Brasil. Mas segundo algumas informações obtidas, Joaquim Pinto, homem muito social, não veio sozinho para Vizela, pois trouxe consigo alguns amigos, tais como António José Gomes, António Vieira Coutinho, Clemente Vieira, entre outros. Eram homens dinâmicos, que segundo o cronista do Jornal portuense, “O Primeiro de Janeiro” de Junho de 1884, vieram atraídos pela rentabilidade dos investimentos na hotelaria e no comércio, acreditando num desenvolvimento seguro, assente em alguns pilares a saber: a existência das águas termais e a construção de um Balneário de qualidade; a beleza paisagística de Vizela, a abertura de linhas-férreas e de estradas com o Fontismo a permitir facilidades de comunicações com os principais centros urbanos e a convicção generalizada que, num futuro relativamente breve, Vizela alcançaria o concelho então já tão desejado. Era uma época de abertura de caminhos e estradas e Joaquim Pinto comprou quase todos os terrenos a nascente da antiga Rua de S. João que, depois, veio a ter o seu nome, iniciando a construção de edifícios que ainda hoje podemos contemplar. Adquiriu ainda uma importante propriedade na Rua Dr. Abílio Torres onde, mais tarde, seu filho, José Pinto de Sousa e Castro, providenciou a construção do Hotel Sul Americano. Joaquim Pinto e seus amigos envolviam-se também no quotidiano da vida da povoação que parecia dar passos firmes no desenvolvimento urbano e económico que contrastava com um atraso significativo na escolaridade dos jovens e decidem lançar ombros à criação da primeira escola primária pública da Freguesia de S. João das Caldas, Joaquim Pinto logo oferece o terreno para edificação da escola, mas com a condição de ser frequentada por crianças de ambos os sexos, pois era frequentíssimo as raparigas serem discriminadas no século XIX, em matéria da educação e cultura. Chegava a ser motivo de escândalo para os aquistas a grande percentagem de analfabetos em Vizela, designadamente em idade escolar, aplaudindo de imediato a criação da escola. Com a presença de pessoas altruístas, organizou-se uma comissão da qual fazia parte Joaquim Pinto, o pároco da Freguesia, Reverendo António José Félix e elementos da Junta da Paróquia, primeira designação das actuais Juntas de Freguesia, que meteram ombros à criação da escola, desejando-a modelar e abrangente a todas as crianças. Por uma questão de curiosidade, dir-se-á que o custo da obra foi estimado em seis contos de réis, importância avultada para a época. O Poder Central participou com 2.950.réis e a comissão com criatividade e dinamismo, conseguiu o restante, recorrendo a subscrições entre os hotéis e realizando um monumental bazar no Parque das Termas para o qual foram conseguidas 1200 prendas para sorteio e sendo algumas de grande valor. Em 5 de Novembro de 1888, já o edifício escolar estava praticamente construído, não demorando muito tempo a ser utilizado e Joaquim Pito presidiu à realização de todas as tarefas mais significativas e, como tal, mereceu o reconhecimento e a gratidão do povo de Vizela. Para além desta informação pouco mais se poderá dizer a respeito de Joaquim Pinto de Sousa e Castro já que não existem, nem fotos nem documentos do benemérito nos álbuns de família. A bisneta de Joaquim Pinto, com 74 anos de idade, recorda-se apenas que as “pessoas mais antigas” a viver na Casa dos Pintos foram os seus avós: Claudino Pinto de Sousa e Castro, filho de Joaquim Pinto, e Amélia de Sousa Braga Pinto de Castro.
Pacheco, Maria José, in “Margens do Rio Vizela Memórias”, 2007 Brochura realizada pela Câmara Municipal de Vizela, 2005
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